Amanhecer no Campeche

Amanhecer no Campeche

sábado, 30 de julho de 2011

vinho doce

Eu posso até dizer tanto faz. Porque, realmente, tanto faz. Mas, lá no fundo, adoraria um retorno, uma volta prá perguntar tá tudo bem? Precisa de alguma coisa? O que tenho pode te satisfazer ou te preencher? Seria como uma possibilidade, ou até como uma atitiude delineada pelas boas maneiras. Vou, mas volto. Vou, mas me preocupa o bem estar de quem me recebeu. Vou, mas apesar de todo o calor que me abrasa, tenho apreço por você. Vou, mas é você que preenche meu imaginário, é você que canta no meu tom, é você  que eu quero.
Expectativas. Não são possibilidades. Apenas desejos no silêncio da noite que escorre. Boca chiusa. Shiiiiiiiii........ 

domingo, 24 de julho de 2011

à espera

Se cadeira de balanço tivesse, nela estaria me embalando enquanto espero.
Vejo um filme, mexo a panela, tomo mais um gole, olho pela janela, tento entender a linguagem das estrelas, sacudo o pé, dou uma olhada no espelho, até banho tomo, me perfumo, troco de blusa, e espero.
Papo rápido no telefone, entro novamente na Internet, revejo as estantes, escolho outro livro, folheio aquele que me leva a outras épocas, dou uma volta no quarteirão, olho as pessoas, passeando com seus cachorros, evito o cocô espalhado nas calçadas (nem todos recolhem a merda dos cães), olho as nuvens, continuo à espera.
Sacudo o corpo, bordo mais alguns pontos, rio com a amiga ao telefone, investigo o endereço da clínica do médico amado e competente que voltou a atender, tomo mais um gole, lavo a louça, olho as unhas, leio dois parágrafos, suspiro, limpo as flores murchas, brinco com a gatinha, vou de novo à janela, exercito a garganta, tento memorizar mais um trecho do que tenho a dizer, e sinto o peso da espera.
Olho de esguelha pro aparelho telefônico, será que o celular tocou e eu estava no banho e não ouvi? Verifico novamente a Internet. Ando prá lá e prá cá examinando as paredes úmidas, não tinha reparado que há um novo broto na samambaia chorona, fora de época, jogo a bolinha prá gata, dou mais um pouco de delicinha prá ela, pequenos nadas pontuando o nada maior.
Por que o silêncio? Prá que? Ouvirmos um ao outro, sabermos um do outro não é um alívio para a distância que nos foi imposta? Mandei uma, mandei duas, mandei três mensagens. Sem resposta. As chamadas foram feitas por mim, será minha a saudade, somente minha?
Então, tá. Quer saber?
Tomo outro banho, visto uma roupa bonita, ponho um perfume sutil e bem feminino, pinto os olhos, as unhas, escovo os cabelos, bebo mais uma taça de vinho, como umas castanhas, olho bem o ambiente, guardando bem guardado na memória cada canto impregnado pela minha espera e espero, continuo esperando que o sonífero faça efeito. É muito tarde, muito tarde, é tarde demais! 

sábado, 23 de julho de 2011

SANDMAN

SANDMAN

“O seu vestido se partiu/ E o rosto já não era o seu”

Caminhava por um lugar colorido em que nada lhe parecia familiar. Muitas pessoas por ali. Turistas? Algumas paradas, estáticas, como petrificadas. Outras, contemplavam os objetos variados espalhados, sem ordem aparente. Procurava identificar o local. Seria um antiquário? O chão de pedra revelava séculos de uso. As paredes, também de pedra, se transformavam logo adiante em muros cheios de hera que separavam sabe-se lá quais quintais. Mais além, um jardim primaveril era separado por uma parede de vidro de uma ampla sala em que mulheres e homens vestidos com trajes do sec. XIX tomavam chá e comiam croissants minúsculos, meio-sorriso nos lábios, observadores frios de uma cena que se passava ao longe: uma bela jovem  descalça que corria por entre paredes e muros procurando a saída. À medida que caminhava, topou com estreitas passagens por baixo de pontes arredondadas. Seria Veneza? Mas não via gôndolas, nem canais, embora muitos mascarados se encontrassem por ali, se exibindo para ele. Seguia a esmo sem ter a menor idéia de onde pudesse estar. Tinha um pouco de medo. Seria cenário de algum filme e todos que estavam por ali, eram figurantes, incluindo ele mesmo? Um palhaço o seguia de perto, dando cambalhotas e rindo sem som, quando ele o encarava, deixando claro que percebia estar sendo seguido. Um pouco mais atrás, espelhos provocavam o reflexo múltiplo de uma penteadeira espelhada. Uma só? Onde? À medida que percorria aquele lugar-cenário, novos figurantes surgiam. Ah, um leão! Mais de um. Deveria correr? De onde surgiram essas árvores que deixavam entrever outra, imensa, galhos e tronco totalmente esculpidos? Não havia som algum, os sons não se propagavam. O silêncio era palpável. Embora ele pudesse ver pássaros e lhe parecesse que mercadores ofereciam seus produtos dispostos em panos multicoloridos sobre o chão, agora arenoso. Não ouvia sequer os próprios passos. Mesclados aos turbantes usados pelos homens, e véus diáfanos que cobriam o rosto e o corpo das mulheres, elefantes desfilavam, à frente de um grupo de homens fortes, de torso nu que faziam acrobacias com suas espadas reluzentes. Estava agora em um lugar que parecia um imenso pátio contido por muralhas altas. O palhaço continuava atrás dele. Para que? Percebeu que a textura de todos os que passavam por ele ou com quem cruzava naquele desfile incessante de lugares e seres e objetos era levemente diferente de sua própria como uma procissão de almas e viu que aqui e acolá havia alguma coisa que conseguia reconhecer. Ora, um jarro que pertencera à casa de seu avô. Ora, uma tartaruga que se movia no adro de uma igreja que vira em alguma revista em quadrinhos ou um olhar trocado com intensidade com alguém, quem? Foi quase atropelado por um bloco de carnavalescos que encheram seu cabelo de confetes e pode identificar tiroleses, havaianas, piratas, índios, odaliscas e cowboys, fantasias usadas por ele e por sua irmã na infância. Topou com uma mesa com copinhos de papel cheios de guaraná e doces, muitos doces. Crianças corriam em volta brincando de pique e se lambuzando. Viu um menino quietinho num canto, olhando com olho comprido aquela mesa, mas quando se aproximou dele, viu-se diante de um chafariz que jorrava água de artefatos azinhavrados. Percebeu que ao tentar tocar alguém ou algum objeto, o cenário mudava. De súbito, o ritmo do ambiente se acelerou. Se viu em um palco, tentando lembrar a fala de um texto muito antigo, da época em que fazia teatro amador. A memória falhava, e os outros atores olhavam prá ele, impacientes, entre eles, um ator célebre. Se viu escrevendo freneticamente em um caderno de anotações, sentado em uma carteira de estudante, enquanto um relógio enorme girava à sua frente e, ele, suando, tentava acabar o que escrevia.  Se viu em uma estação, correndo atrás do trem que já tinha ganhado velocidade, enquanto um funcionário acenava a bandeirinha, e o olhava raivoso, como se gritasse:    
- O trem já partiu!
Tentando subir uma rampa de cimento, pernas pesadas, se perguntava que raios de lugar era aquele e súbito, a viu: pálida, olhava prá ele, sentada em um balanço amarrado em uma mangueira. Parecia ser de cetim seu vestido furtacor. Reconheceram-se de imediato. Ela, no entanto, olhava prá ele como que pedindo que viesse devagarinho. Ele controlou o ímpeto de pegar-lhe o rosto, sabia que ela sumiria caso a tocasse. Rodeou o balanço, queria lhe cantar uma canção especial, a mesma de antes. Ela o encarava séria, com um leve toque de malícia no olhar. Havia encantamento e doçura naquele encontro. E ele viu que todas as figuras com quem cruzara naquele mundo imaterial estavam em torno deles e daquela árvore esculpida de onde pendia o balanço. Formavam um círculo populoso não muito próximo. O Palhaço se destacava entre os leões.
Ele sorriu. Ela sorriu. Um solo de sax rompeu o silêncio, cada vez mais alto, mais alto!
Acordou desesperado! Queria voltar àquele estranho mercado que abrigava o seu sonho que se extraviara. De lá, tinha certeza, não queria sair nunca mais!

Margarida Baird
28 de junho de 2008
Coqueiros